segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Esta madrugada escrevi assim (4)


A guitarra sussurra-me um fado novo e apetitoso. Acompanha a voz que suspira num tom cúmplice “eu não sei falar de amor” *. Os ouvidos, acariciados pela melodia, engraçam com a frase e esticam-se para melhor absorver a restante letra. Entretanto, já o coração viajou para perto de ti; já começa o organismo a dividir-se em funções múltiplas, as mãos que querem traduzir tudo, os ouvidos que querem beber a letra da música bonita e o coração que quer pular até ao teu encontro.

O rebuliço, portanto.

“Às vezes até parece injusto”, escreveste (acerca das saudades que a distância encomendou), em jeito de remate (porque a conversa acelerava a chegada dessa encomenda incómoda). Concordei plenamente mas não me atrevi a dizê-lo. Mudámos de assunto subtilmente, como já é hábito quando se torna insuportável permanecer batendo na mesma tecla.

Far-se-á justiça no reencontro (ainda que ele não tenha data marcada)
E, contra factos, não há argumentos.



* “Ó vizinho, então adeus!
Vou cuidar de sonhos meus...
que eu não sei falar de amor…”





P.S. A fotografia, tirei-a nos Jardins do Palácio de Cristal , em Massarelos.

sábado, 30 de agosto de 2008

Voltei (2)

Caro leitor e/ou cara leitora:

Boa noite. Regresso aos moldes pessoais e directos dada a extrema necessidade que sinto em justificar esta ausência, típica dos meses em que todos andam feriando. O meu caso não é excepção. O tempo de lazer é ocupado com inúmeras actividades, já é sabido, e a escrita é, obviamente, uma delas. Porém, durante estes meses, tem-se mantido confinada ao caderno de capa preta, permanecendo distante de teclas e ecrãs.

Espero sinceramente que as suas férias tenham sido merecidamente aproveitadas até ao limite; não existe tempo mais propício a descobertas e mudanças do que este, em que tudo é descanso, relaxe e descontracção, pelo menos para quem faz parte do grupo dos felizardos que ainda podem gozar as ditas férias. Espero também que esteja de energias (ou baterias) recarregadas para os novos desafios que se avizinham. (frise-se o facto de estar a escrever baseada em meras suposições)

Queria poder dizer que voltarei a escrever aqui de forma minimamente regular, mantendo os moldes dos textos a que quem me visita já se habitou, mas não posso afirmar tal coisa. O facto é que as mudanças na maneira como me exprimo por escrito têm sido consideráveis, por vezes incoerentes e também significativas. Releio certas linhas que surgiram recentemente e reconheço partes de mim que julgava enterradas num passado distante, mas não tanto quanto se possa pensar. Descubro facetas antigas aliadas a facetas novas, que se revelam não apenas no campo das palavras.

Bem, o que quero eu dizer ao/à caro leitor/cara leitora com todas estas linhas? A resposta é sensaborona: nada de especial. Estava apenas com vontade de reiniciar o blog dirigindo-me a quem ainda tem paciência para reler estes míseros escritos. Um grande bem-haja, um muito obrigada por isso.


(e um beijinho*)


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ser feliz...

... é tudo isto que carrego no peito e não sei traduzir em palavras. Ter tudo, não merecer nada e sorrir como se amanhã o sol não nascesse. É sentir bênçãos infinitas derramadas sobre a minha existência, mesmo nas ditas coisas menos boas.

É este estado de alma, caído do céu, incomparável.



P.S. A fotografia é da minha Leguminosa favorita.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Mês sétimo, trigésimo primeiro dia


Ela esperava. O toque-toque das unhas no corrimão da escada, o passo impaciente naquele metro quadrado, o coração incomodamente palpitante, incessante. Esperava por essa promessa que havia de cumprir-se, a sua chegada, e tremia ao barulho da aproximação de mais um comboio… quem sabe se ele não estaria ali…

Ela esperava. Decidiu largar aquele metro quadrado e avançar por mais uns quantos. Afinal de contas, a praça era bem larga e não estava apinhada de transeuntes como é habitual. Avançou e recuou. Sempre demarcando bem o espaço, alargando a área percorrida, apesar de continuar a delimitá-la com os seus passos. Enquanto esperava apercebeu-se de que fazia parte da visão de um outro homem, talvez também esperando por alguma coisa, que lhe sorria como que dizendo-lhe “podemos enfrentar essa espera juntos”… ela continuava à esperar, junto ao corrimão da escada, sem auxílios humanos exteriores. Esperando, apenas.

Ela esperava, sabendo exactamente, dos doze lances de escada existentes, quais seriam aqueles que ele ia descer. Não sabia como mas sabia-o irrevogavelmente. Esperava continuamente, mais um comboio, mais uma ausência. Durante aquela espera, e quando era possível serenar o peito, ela lembrava todas as situações, palavras, angústias, partilhas, gargalhadas que haviam vivido a dois. E não era capaz de conter o receio grande de que tudo não passasse de uma história virtual, impossível de se materializar. Receava-o, mas esperava. No momento em que ele chegasse ou se dissipavam os medos ou os mesmos se instalavam de malas e bagagens. Só podia esperar, então continuava a fazê-lo.

Ela esperava por esse sonoro ruído que é a fricção entre as rodas do dito comboio, onde ele chegaria, e os carris, e esperava com impaciência. O seu rosto, porém, era calmaria e riso. E todo aquele tempo, símbolo de uma espera tão maior que aqueles minutos, símbolo de uma espera forçosamente paciente, uma espera certa, resoluta, que se eliminaria com a chegada do outro ser. Ela esperava por isso mesmo, por saber que assim era certo e por saber que a seu tempo ele chegaria e ficaria.

Esse sonoro ruído que é a fricção entre as rodas do dito comboio, onde ele chegaria, e os carris fez-se ouvir, finalmente. Pelos doze lances de escadaria distintos desceram inúmeras pessoas. Ele, porém, desceu pelo lance previsto e foi ao encontro dela. E naquele espaço que não é abraço nem é distância, os seus olhos disseram tudo, tão carregados da ânsia que tinham em viver aquele momento. Nesse espaço em que tudo se concretiza os lábios nada disseram nem nada fizeram. Apenas gritaram os olhos brilhantes todas as coisas que já se sabiam. Dissiparam-se, instantaneamente, os receios, e houve toque, houve fôlego, houve um beijo colocado na testa, com os olhos gritantes fechados.

Ela tinha deixado de esperar. Era tempo, era o momento. Esperar vale sempre a pena.



P.S. Um destes dias de Verão, depois da praia matinal, a prima Cristiana adormeceu à janela. Tive mesmo de fotografar.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Querida Piek,


Obrigada por me teres oferecido este lenço. Mal sabíamos, tu e eu, as reviravoltas que ele ia viver depois de mo dares. O dito cujo já tem tantas histórias para contar. Não fosses tu insistir, naquele dia, para que ficasse com ele, e o lenço não teria feito metade das viagens que fez, nem simbolizaria metade das coisas que agora simboliza.

Agradeço-te, querida Piek, de coração. O lenço que era teu passou a ser meu e agora faz parte de um “nós”. Referimo-nos a ele como sendo “o nosso”; é tão bom saborear este plural delicioso.




P.S. A fotografia é da prima Ana Carolina.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Já diziam os Pontos Negros (2)




E o coração bate com o sangue de outra pessoa,
E o coração bate com o sangue de outra pessooooa...



P.S. A Beatriz fez o desenho, eu tratei de fotografá-lo. Combina-se a Noite de Gala com o ketchup e dá nisto.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Voltei



A porta do carro fechou-se após a minha entrada, a chave rodou na ignição e a partida tomou o lugar da perfeição daquele tempo. Parti dali, regressei a casa. Entre sonos curtos e músicas que já conhecia desde a infância, os sorrisos que há tanto tempo não via, as vozes que há muito não ouvia, marcavam a sua presença em meu redor, como um longo cobertor feito de amor. Partia dali, regressava a casa. Lá fora, as relvas corriam contra o vento, as nuvens balançavam-se pelo tempo, as ventoinhas gigantes giravam preguiçosamente. Lá fora, o sol a brilhar não se cansava de me beijar a pele, de a escurecer mais um pouco.

Durante essa viagem iniciei a arrumação de todos os sentires acumulados em duas semanas molhadas de bênçãos. E organizava tudo metodicamente, a primeira semana, a segunda semana. Pensava eu ser capaz de tal tarefa depois de ter começado a partir e a regressar a casa. Mas não me foi possível, como já era esperado. Foram tantos sentimentos, tantas lágrimas carregadas de emoções díspares, foram tantos olhos a jorrar amor, tantos abraços, tanto de Deus… que comum ser humano poderia organizar tudo de forma tão metódica e certeira?... Não eu, de certeza. Naquele carro o meu peito ficava cada vez mais cheio de tudo o que tinha vivido. De como Ele se mostrou sempre tão presente em todas as fases, de como Ele foi a mão que encaminhou tudo, que nos guardou de tudo, que tocou em tantos corações. O meu peito inchava do calor Dele, que emanava segurança em tempos de incerteza, que transbordava de esperança para aqueles que outrora não viam mais que a morte. Toda eu, insuflada por um sentimento tão maior que o universo que nem sequer o consigo traduzir em letras combinadas, formando palavras belas.

Partia, regressava a casa. E comigo trazia os campistas de quem tomei conta, os conselheiros com quem partilhei dias, noites, risadas, orações, mãos, corações, tudo. Comigo trazia as memórias boas e as memórias menos boas, as primeiras pintavam os dias, as segundas faziam aprender mais. Comigo trouxe as diferenças de dois acampamentos, ao nível da idade, das pessoas, dos trabalhos, das dificuldades. Comigo sempre está aquele que une todas estas pontas desiguais. Deus. Sim, é Ele que reina, e faz do acampamento um lugar de reconhecimento, de transição, de crescimento, de bênçãos infinitas, de esforço, de lazer, de perfeição. Faço uma breve pausa para recuperar o fôlego, tenho o coração tão cheio, já tinha dito, não é?

Naquela viagem serena e de regresso tudo se consolidou num grande bloco de amor eterno, essa Rocha que nos sustenta a cada dia. Cheguei a casa. E em mim vinham todas estas coisas e mais uma. Vinhas tu. Foste, simultaneamente, o primeiro e o último a entrar em mim. E agora que estás aqui incrustado, não há como fazer o coração parar de pulsar muito rapidamente, não há como abater todas as certezas de que sou feita neste momento. É tão certo como ar que eu respiro. É tão certo como amanhã que se levanta. É tão certo que a Sua mão faz o impossível até sempre. É tudo tão certo.

Voltei.

P.S. Tireia a fotografia à casa que foi minha e de muitas. O Faroeste.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Hasta pronto ! (:

Caro leitor e/ou cara leitora:


Wendy e Mirza vêm por este meio despedir-se de vossas excelências e salvaguardar o seu regresso dentro de duas semanas. Estarão neste maravilhoso lugar em trabalhos, aprendizagens e crescimento constantes.


Um bem-haja, um até mais logo, e um beijinho*

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Música, como viver sem ela? (7)

Hoje só me apetecia ouvir esta. Dispensa quaisquer apresentações.



É como diz o autor do vídeo. Enjoy.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A derrota é como uma lente, ou como uns óculos graduados à medida...



Ouço o silêncio a rodear-me. Só o ramram da ventoinha e as teclas nos dedos é que ainda não pararam de se fazer ouvir. Sim, também o vento nas folhas e o canto nos pássaros se mantém audível, maravilhosamente audível. Mas aqui, sentada nesta cadeira com a luz da manhã, quase tarde, a entrar pela sala inteira, o silêncio rodeia-me, como um abraço longo, dizendo-me que oiça. Simplesmente.

Coloco-me, portanto, à escuta. A campainha. Não vou abrir. O autocarro. Não o vou apanhar. Vozes que ecoam no meu crânio, que falam de amor, de amigos, de planos, de sentidos, de direcções, de decisões, de ainda mais amor, falam, nunca se calam. Por enquanto, não lhes presto atenção. O silêncio continua instaurado, incita ao ouvido mais apurado. Então, escuto mais; ouço A voz.

(suspiro)

É A voz que me diz que nada do que eu penso estar correcto está correcto (quanta redundância), que me informa que mais vale deixar de lutar pelas minhas vontades e pressupostos alvos porque, a não ser que também Ele queira, nada se concretizará. É A voz, dizendo sempre o mesmo que eu nunca aprendo. Que a derrota é como uma lente, ou como uns óculos graduados à medida, que corrige a miopia dos meus planos pequenos e me faz olhar para cima, para novos horizontes, novos caminhos, novas pontes. É a derrota que me fecha a janela que eu queria trepar a todo o custo e abre a passagem secreta, que por acaso também é uma porta, para que eu vá pelo meu caminho. É verdade, disse-mo O que tudo sabe. Que esta derrota serve para apreender o verdadeiro preço, e para aprender a ver o verdadeiro alvo. E que, mais que tudo, ela alberga uma vitória, mesmo quando disso não se espera.

Os passos no corredor quebraram o abraço do silêncio, ou talvez ele próprio mostrou vontade de retirar de mim os seus braços, do seu abraço. Volto a ouvir o mundo inteiro, e apenas um pouquinho de silêncio, o suficiente para não me esquecer do que aprendi nele. Nessa derrota começou uma nova luta, que não se trava, com certeza, sentada impavidamente serena, numa cadeira.



P.S. Tirei a fotografia numa bela manhã de praia. Gosto tanto de olhar o céu assim, azul até ao fim, pintado de nuvens brancas.

domingo, 6 de julho de 2008

Estou na adolescência e nem sabia -.-'

Subitamente, é tudo coração. É tudo bombeamento sanguíneo, é tudo ritmo acelerado, tudo são faces afogueadas pelas lembranças assertivas, é tudo este estar incessantemente inquietante. De repente, o que antes era calmaria agora é tempestade, o que era certeza agora é novidade e a questão pertinente “porque não” é dúvida mais que constante.

E, inusitadamente, um mal-estar que afinal é nervoso instala-se no peito, munido de armas e bagagens, pronto para ficar. Era suposto sentir êxtase, sentir vida em mim, sentir um qualquer preenchimento que nem sei definir. Mas não. Sinto apenas o pânico de existir quem seja capaz de me destituir de uma boa parte de mim: do meu domínio, da minha (pseudo) segurança.

Nunca gostei, e continuo a não gostar, de me encontrar exposta. E não há posição mais vulnerável que esta em que me encontro. Aquela em que o que sinto toma contornos e o que tu sentes é uma nuvem muito, muito indistinta.

sábado, 5 de julho de 2008

Esta madrugada escrevi assim (3)


Parece que voltarei a passar muitas mais madrugadas a escrever assim. Porque, se continuas a insistir em permanecer aqui, sussurrando-me ao ouvido pensamentos distantes, implorando que de ti não me esqueça quando estou prestes a fazê-lo, relembrando o teu saborosamente contagiante riso… vou ter mesmo de (re)descrever sentimentos mal enterrados, passados que se queriam distantemente remotos e estados de alma deveras peculiares, aos quais já não me encontrava habituada.

(suspiro)

Parece que o coração quer dar um pulo ansioso para fora do peito.



P.S. Eu sei que não é do teu conhecimento, mas a fotografia está cortada e é desta Leguminosa.