segunda-feira, 8 de março de 2010

É assim que se faz. (2)

Em Marrocos o trabalho ia de vento em popa: os missionários que eram enviados criavam igrejas clandestinas, fixavam-se no país, prosperavam; aproximavam-se genuinamente das gentes daquela terra, falavam da sua fé e os marroquinos, um a um, criam. Apesar de a Polícia nunca descansar no seu dever de fazer cumprir a lei, havia mais e mais comunidades cristãs mesmo debaixo das suas barbas. Entre ontem e hoje vim a saber que prenderam, interrogaram e deportaram líderes que impulsionaram este movimento naquele país. Perante tais notícias procurei saber como estavam aqueles que conheci no Verão, que tão grande bênção foram na minha existência. Esperava encontrar algum desalento, alguma tristeza nas palavras… (sou tão mas tão pobre de espírito…)

O H. disse que havia alguns problemas, que o governo queria fazer “uma limpeza”, mas que não me perturbasse, que “o Deus já estava no Marrocos”. O H. disse que agora nada havia a fazer; por muito que os poderosos quisessem, “o Deus vai mandar mais!!!”

É assim que eu aprendo. Eu, julgando que ando a lidar com a tribulação, choro lágrimas infinitas. Eles, a serem perseguidos e expulsos do seu país, afirmam em plenos pulmões quem é Aquele que manda mais.

É exactamente assim que eu aprendo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

(sem título) (4)

tenho

sonolências, olhos que tremem, lágrimas que escoam, coração que se descompassa.

Só tenho cansaços (dormentes), e gratidões (imensas), e preces (prementes), e exaltações (pungentes).





Tanta coisa numa vida só.

terça-feira, 2 de março de 2010

Já dizia a Sara Tavares...

"Não vale a pena (na-na-na-não) correr atrás do vento.

Está serena no teu tempo."

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Subitamente

Eis que aquela terra volta a chamar por mim.
Como um sopro subtil, um sussurro ao coração: volta.

Quero tanto voltar, há tantas saudades para aniquilar!...





Será que posso?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Observação

(Biblioteca, 21 de Janeiro de 2010)

Era uma rapariga tão comprida, tão comprida, que tudo nela era longo. Uma cara que não terminava num queixo redondo, uns cabelos cujas pontas não terminavam nos ombros, uns braços cujas extremidades não tocavam nas ancas, e umas pernas cuja altura não se conhecia; pois a par de tudo isto, usava um comprido vestido cinza, que não permitia ver o que já se afigurava serem uns amplos tornozelos.
Comprida em todo o seu esplendor, caminhava lânguida, ou não fosse essa a básica medida do comprimento. E, como não podia deixar de ser, a comprida tristeza que carregava nos olhos cansados inundou as escadas que desceu, que nem conseguiam ser mais compridas do que ela.
Passou por aqui agora mesmo, num passinho curto.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Crónica de encantar

Aos seus olhos ele era um príncipe. Não desses encantados, que cavalgam por verdes campos em esbranquiçados cavalos, envoltos em clichés constantes. Não; para ela, ele era um homem cheio de realeza, nas feições belas, nos modos discretos, nas vestes agradáveis, nas aprazíveis formas do seu corpo inteiro. Emanava ares de príncipe, no sorriso, na voz grave, mas principalmente no trato com os demais, e na humildade com que perfumava o ar que atravessava. Ela deleitava-se com as pequeninas coisas que os enamoramentos recentes costumam agigantar, com o simples facto de se cruzarem num caminho comum, com um sorriso cúmplice trocado no meio da multidão, com palavras ditas num cordial tom… para ela, tudo eram palpitantes pinceladas num quadro cada vez mais interessante de pintar.

Aos seus olhos ela era uma princesa. Saída de um conto de fadas, em total consonância com a idealista perfeição. Tinha o rosto emoldurado por longos cachos louros, um porte bonito, vestidos rodados, sapatos de cristal, prontos a serem deixados numa escarlate escadaria. Gostava de a ver atravessar o seu caminho, graciosa. Por ser um senhor, procurava a maior descrição no modo como se perdia em observá-la. Ele deleitava-se com as típicas coisas que os enamoramentos recentes costumam agigantar, com o seu sorriso doce, e a sua larga gargalhada, com o toque delicado que conseguia deixar em tudo, mas sobretudo, com as certeiras palavras que distribuía cautelosamente, nem demais nem de menos.

Assim se viam, mutuamente, abstendo-se de confissões. Ela por receios femininos, ele por másculos cuidados, ambos pelo adoçante sabor que o platónico sentimento conferia aos seus dias.

Assim se vêem; assim ainda se vão vendo. Até quando aguentarão calando o que os olhos não cessam de gritar?


(É que já todos sabemos como isto vai terminar…)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

HAITI - Concerto


Vai ser às 20h30 do dia 14 deste mês (domingo);
Vai ser de louvor;
Vai custar 5 euros que vão ser para ajudar a atenuar o desespero de quem perdeu tudo.
Vai servir para levar esperança onde ela se extinguiu.

Vai ser em Lisboa, no CCVA de Alvalade;
Vai ser muito bom.


Vais lá estar?




As reservas são feitas aqui

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A segunda coisa mais honesta que escrevi em muitos dias:

Oh L., não sei o que fazer.

Com o tempo.
Com o medo.
Com as decisões.



(sempre a L.; até de longe, sempre a L.)

sábado, 23 de janeiro de 2010

(exposição)

Escrevo-Te porque falar não posso, pois a noite se abateu sobre a Terra e é tempo de descansar. Escrevo-Te porque pernoitar me é ilícito, a dor assola o meu âmago inteiro. Eu vejo-Te, e ouço-Te, e a vergonha se abate sobre mim. Quem és Tu, que de mim Te compadeces, que entendes as minhas fugas e aceitas que para Ti corra por não encontrar fôlego em mais lado algum?

Quem és Tu que não Te insurges com as minhas faltas, com o meu embaraço em declarar-Te, com as lágrimas que correm pelos mesmos constantes motivos? Quem és Tu que tens tanto amor tão impossível, tanto abraço reconfortante, tanta força inesgotável, tanto mistério milagrosamente escondido, tanta verdade e sapiência, tão infinita perfeição? Quem és Tu que me impeles a ser melhor; e que me perdoas por falhar em cumpri-lo, sempre? Quem és Tu, minha necessidade básica, minha razão mais premente, minha fonte de existência?

Sim, a vergonha se abate sobre mim. Quem sou eu para ter a permissão de rastejar, esbaforida, a Teus pés? Pois o imaculado chão que Tu pisas se escurece com as minhas errâncias e soluçantes prantos; pois as repetições dos delitos crassos mancham até a fragrância que Tu exalas. A fuga desmedida nada resolve, esconder-me de Ti é não possível; tentar calar-Te em mim é insânia, as Tuas palavras ecoam fazendo ensurdecer qualquer outro pensamento.

Hosana, Hosana. Hosana nas alturas. Quem és Tu que esqueces todos os meus tropeços e me fazes nova criatura, limpa criatura, alva e pronta para recomeçar? E quem sou eu, que demoro tanto precioso tempo a reconhecer o Teu irrepreensível comando? Quem sou eu que Te não mereço, e quem és Tu que me anelas sempre mais? Que foste capaz de Te dar por mim? Que tipo de matéria sou eu, que me entorpeço, e que tipo de criador és Tu, que me aprimoras? As palavras, parcas, jamais traduzirão o rio de emoções que transborda o caudal de mim. As palavras serão sempre parcas, as respostas sempre ilógicas. Pois Tu és Aquele que conheces em secreto, entras, fazes-Te entender, tomas conta e transformas.

Hosana, Hosana. Hosana nas alturas.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Época de Avaliação

História da Psicologia é uma cadeira bonita, superou as minhas expectativas. Eu esperava uma enumeração de factos, cronologias e nomes em todo o seu esplendor. Ao invés disso, encontrei relações inteligentes entre o outrora e o agora, desde a Antiguidade Grega até ao melhor dos dias de hoje, explicando a origem de pensares que se partilham por homens tremendamente afastados no tempo, e fazendo menção às respostas brilhantes encontradas pelos mais afamados nomes.

A coisa mais bonita, porém, de todas as que aprendi, foi esta:

ARISTÓTELES

Potência e acto

Para Aristóteles, todas as coisas do universo tem simultaneamente potencialidade e actualização, com duas excepções – a matéria e Deus. Quanto mais próxima estiver de ter actualizado as suas potencialidades, mais qualquer coisa estará próxima de Deus. Assim, é possível pensar o mundo como uma hierarquia, tendo nos degraus superiores os seres que mais potencialidades actualizaram e nos inferiores a matéria neutra apenas em potência (esta ideia resulta na idade média na Grande Cadeia do Ser). Estas ideias procuram responder ao problema da mudança/permanência. Mudamos, permanecendo o que sempre fomos, pois a mudança é tão-somente uma actualização das potencialidades pré-existentes.

(fonte: Sebenta da cadeira, 2003)


Espero (mesmo) que o trabalho da frequência de hoje dê frutos; sumarentos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Maturescente

Conversávamos acerca do perdão, do exemplo do perdão perfeito que tínhamos, da centralidade deste, da sua incompatibilidade com as normas vigentes nos dias que passam, andando ou correndo. Durante a conversa pensava apenas na D., e como lhe tenho interdito o meu genuíno perdão, sem contestar a incoerência em que incorria; sem considerar o desapontamento do Exemplo.

É quando me apercebo das dores que a D. carrega, das aprendizagens que a vida lhe traz, que compreendo o óbvio, deliberadamente ocultado. Obedecer e ser amor, como me foi ensinado tantas e tão diferentes vezes.

Depois de tanto, é mesmo isto que faz sentido.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Apontamento (3)

Não é birra, não é filme, nem sequer síndrome.
Não é pancada, na verdade não é nada.
Não é de ontem nem de agora, é desde o início de sempre.
Não é passível de ser explicado satisfatoriamente.
É tido como desvario; realmente, nem se entende.
Não é argumento, nem máscara, nem lágrima.
Nem apenas uma chamada de atenção.

(é que…
Se tal desse, escolheria não agigantar-me.
Escolheria a candura, a dependência ininterrupta.)


É, sim, facto.
É ânsia, descontentamento teimosamente eterno.
É âmago.

Não quero crescer.