sexta-feira, 30 de maio de 2008

Música, como viver sem ela? (4)

Ontem o dia acabou de uma maneira áspera. Já tinha tido umas superfícies rugosas no seu desenrolar, mas o seu culminar, mais que áspero, foi ácido.

Esta música embalou-me até as pálpebras cobrirem os globos oculares; embalou-me até ao acordar desta manhã. E eis que, ligando-me ao mundo através dessa teia imensa que é a Internet, redescobri canções que já me embalaram os dias, que os perfumaram com um odor doce e memorável. Através desta e desta regressei a um Verão bonito e marcante, regressei aos tempos relaxados e despreocupados. Como é que as pude deixar na gaveta durante tanto tempo?

Mesmo assim, antes de ouvir as duas mencionadas, ouvi esta em primeiro lugar. O reencontro foi tudo o que eu precisava; “Um sopro, um calafrio, raio de sol no refrão. Um nexo enchendo o vazio, tudo isso veio numa simples canção
(Clã). Reencontrei uma das canções que me afagava a alma em momentos menos macios e que o continua a fazer.

Hoje não coloco aqui quaisquer vídeos. Se as letras o/a incitaram a procurar as melodias que as acompanham, faça-o o/a leitor/leitora por auto recriação. Garanto que não se irá arrepender.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Declaração (2)

A percepção para certas realidades aguça-se em mim há medida que os meses e os dias vão passando. As constatações são constantes e pertinentes, factos meus que eu desconhecia. A situação que me tem criado mais incómodo nestes últimos tempos está a tornar-se exasperante. E não pelas razões esperadas; exasperante não por culpa de quem vive no outro corpo, mas porque estou a ter inúmeras dificuldades em lidar com tal conjuntura.

Convivo com este outro ser durante a semana inteira e, por força das circunstâncias, em alguns fins-de-semana. É uma personagem deveras peculiar, como, aliás, o são todas. Tem imensa propensão para a inconveniência, peca por ansiar objectivar, registar, expressar, marcar tudo e mais qualquer coisa. Tem algumas das suas ideias demasiado fixas, e por vezes custa-lhe afastar-se das mesmas. Apesar de tudo, parece, a quem de fora observa, uma paz de alma, e verdade seja dita, paciência e capacidade de trabalho são qualidades que não lhe faltam.

Ora, juntando todos os elementos acima descritos obtemos alguém com quem pode ser, ao mesmo tempo, excelente e péssimo trabalhar. Excelente quando efectivamente trabalhamos, quando somos incisivos e cumprimos objectivos preestabelecidos, quando se distribuem tarefas e se apresenta o resultado do esforço. Mas péssimo quando toca a tomar decisões, a partilhar alvos, a estabelecer prioridades. Péssimo quando é preciso tomar decisões rápidas e eficazes, falar menos para se passar à acção mais rapidamente; péssimo quando se torna exasperante explicar o essencial de uma ideia e se é constantemente interrompido com objecções.

É uma grande espada de dois gumes e nunca fui muito boa no manejo da mesma. A mostarda alcança as narinas facilmente, dado que também o meu temperamento é difícil. Tenho muita dificuldade em ignorar, menosprezar, não ficar aborrecida com comportamentos inusitados e descontextualizados. Já sei, já sei. Não devo dar tanta importância a manias menores, não devo ligar e aborrecer-me com ninharias. Mas já dizia o ditado “ninharia a ninharia enche a ‘stressada’ o saco”.

É dar-Lhe ouvidos na hora da irritação, deixar que Ele me acalme e me aclare as ideias. Sim, porque se tal não sucedesse, há muito que as verdades já teriam saído disparatadamente. Deixariam, assim, de ser verdades, passariam a insultuosas faltas contra o outro ser, do outro corpo. (suspiro) Já me julgava tão grandinha. Ainda tenho tanto para crescer.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Música, como viver sem ela? (3)

Hoje acordei com esta. Chama-se Game, e é dos Beady Belle. Aproveito para confessar que esta foi a primeira vez em que ouvi a música na íntegra; foi amor à primeira vista. Apreciem, aproveitem.





Um beijinho*

sábado, 3 de maio de 2008

Bifurcação

“Vai!”, disse-lhe enquanto ia. Dizia-lhe que fosse, mas quem partia era o seu corpo, cansado da letargia em que se tinham afogado. Partiu e caminhou durante dias. Desbravou um caminho duro e incerto, o caminho que se tinha impedido de percorrer durante tempo indeterminado; o seu próprio caminho, o da sua alma. Assim andava, assim crescia, assim melhor se conhecia.

Ao esforçar-se em demasia, descansou; três dias apenas. Estando o corpo recuperado, percorreu aquele caminho já trilhado, desta vez, porém, na direcção oposta. Queria reencontrar o outro corpo; aquele que albergava a única alma capaz de entender a importância da partilha das descobertas que tinha feito na sua jornada. Ao alcançar o local de partida, encontrou-o destituído de quaisquer passos, quaisquer corpos, quaisquer marcas da presença de quem pretendia encontrar. E clamou durante longos minutos, gritou sem cessar. A voz falhou. Os braços caíram, arrastando o esqueleto para o solo. A sua respiração sôfrega e intermitente parecia estar prestes a cessar.

Pensava já ter caminhado tudo, mas esta era a bifurcação que tanto pavor lhe suscitava. Partir. Ou permanecer.