terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Criança-mãe

Sempre me apelidaram de “mãezinha” e consistentemente nunca gostei de tal. Desde tenra idade que me apontam este instinto cuidador, dizendo que há em mim uma predisposição (quase) inata para ser mamã, uma vez que diligentemente expresso afectos, cuidados, preocupações, e todas essas coisas que se associam às mães. Ora, essas expressões constantes não são forçadas, nem sequer têm o propósito de fazer com que aqueles que me rodeiam se sintam como qualquer coisa próxima de filhos; já aqui escrevi outras vezes a explicação mais honesta que encontro em mim – só sai.

Há uns dias atrás a minha querida Meg (enquanto conversávamos acerca de um terceiro amigo) foi ainda mais longe nesta coisa do ser maternal: afirmou que eu tinha “estaleca para ser mãe espiritual”, uma vez que “há medida que crescemos na fé e influenciamos a vida de outros eles consideram-nos ‘pais’ (…). Jesus é O [nosso] exemplo mas Ele vai aperfeiçoando pessoas aqui na Terra, as quais amamos e nos corrigem e admoestam, e esses são os nossos pais”. Estas palavras ficaram a ecoar em mim; a conversa seguiu o seu rumo e o peso da associação recorrente ficou aqui comigo.

Sei que cada par de olhos vê o mundo “com as suas lentes”, e também suponho que esta característica não cessará de me ser atribuída por aqueles que me conhecem (e vão conhecendo cada dia mais), mas a sensação agridoce que esta adjectivação traz também se intensifica. Que honra é poder ler estas palavras tão doces e sublimes aplicadas a mim, e saber que quem as diz acredita de verdade nelas; que fabuloso seria sentir que tais coisas se aplicam a mim com a mesma convicção.

Não sou nem me sinto como se fosse “mãe” (espiritual ou não) de ninguém. Só Deus sabe como Lhe peço fervorosamente que me faça mais parecida com o que Ele quer que eu seja, com o potencial que os outros que me amam vêem em mim; com o que ainda não se cumpriu. Ele lê-me inteiramente, e sabe que ainda tenho tanto que andar, tanta sopa para comer até ser mãe espiritual de alguém, até ser mãe de alguém (“no verdadeiro sentido da palavra”).

(suspiro)

“O que é um adulto? Uma criança de idade.” (Simone de Beauvoir)

O que sou eu? “Uma criança de idade.”

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fisionomísses

Sou fascinada por caras. Para mim é sempre avassalador poder verificar que há tantos narizes diferentes, tantos formatos de lábios, tantas variedades de olhos, cores, sobrancelhas, orelhas… e como a quantidade de combinações parece infinita. É-me difícil considerar uma pessoa feia; sou obcecadamente fã da diversidade. Mas isto não é o melhor das caras. O melhor das caras são, sem dúvida (!), as expressões! Ah, como eu me regalo a ver o esforço na testa, a contracção das bochechas, o beicinho ou a comichão, cada particularidade apetitosamente expressiva.

Rebolo a rir por dentro com as caras das pessoas. E não é um gozo maldoso, é um gozo de quem se deleita nas maravilhas da Criação. Cada qual com a suas coisas emblemáticas, todos juntos num explosivo cocktail de caras que se expressam sem pensar.

É um fascínio, ponto final.




NOTA: Este texto é de dia 15 de Novembro do presente ano, e foi escrito na biblioteca. Uma vez que estou, agora mesmo, perdidamente distraída na biblioteca, resolvi partilhá-lo. Isto que escrevi assola-me trezentas mil vezes por dia. E é muito comum, também na biblioteca, esquecer-me dos papéis e do estudo por ficar a olhar para as caras de quem me circunda.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

"Hás de ver, surpreso, quanto Deus já fez"

Ela chora (tanto!). Que dor copiosa, a que invade o coração, que esses olhos inchados e emersos em água e sal instalam. Chora, quase sem cessar. Às vezes os dias passam e ela consegue soltar uma das suas deliciosas gargalhadas, mas na maior parte dos dias, ela chora, muito.

“Conta as bênçãos!”, repito, às vezes para fora, muitas vezes para dentro. Isso ajuda-me a não chorar como ela, é o que me alivia o coração, o que me humilha e me torna grata. “Conta as bênçãos!”, grito, às vezes baixinho, muitas vezes por palavras diferentes. E ela, pobre, chora.

Presumo que eu seja como eles dizem, inocente, infantil, cega para a atroz realidade que vem atrás de nós como um papão para nos apanhar. Mas continuo a contar as bênçãos:

Uma casa, um aquecedor, roupa, botas, ténis, irmãos, irmãs, pais, avós (todos vivos), primos, primas, amigos, amigas, risos, estudos, livros, bibliotecas, canções, computadores, água, perfume, cremes cheirosos, liberdade, a vida eterna, uma igreja, muitas igrejas, internet, palavras, expressões, funcionalidades, canalização, luz, electricidade, autocarros, comboios, barcos, pontes, aviões, céu, nuvens, sol, chuva, guarda-chuvas, casacos, lenços, cachecóis, agasalhos, pentes, cabelos, olhos, mãos, nãos, sims, boca, pés, nariz, cabeça, cérebro inteiro e funcional, pernas braços, coração, incentivos, equilíbrio, Bíblias, devocionais, desafios, frio, quente, phones, mp3, alimentos, doces, salgados, amor, amor, amor, amor, lágrimas, rotinas, coisas inusitadas, felicidade plena, paz, viagens, telefones, dinheiros, banhos quentes…

Podia ficar aqui horas, dias, meses, a contar as bênçãos. Conta as bênçãos; e não chores tanto assim, por favor. Se ao menos soubesses como somos felizes com o tanto que temos… conta comigo; pode ser que te alivie o coração, que te humilhe e que te lembre de quando aprendeste a ser grata.

sábado, 20 de novembro de 2010

Isto faz muito sentido para mim, hoje em particular.

Let them shine.
Let them shine on.



Let me shine.
Let me shine on.

Das Letras.

Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa lê-se e escreve-se. Há alunos espalhados por todos os lugares, lendo. Nos recantos recônditos do jardim, na escadaria principal (quais estátuas renascentistas, junto aos pilares), pelas mesas que se espraiam por todos os corredores, nos bares enquanto almoçam… respira-se a alma de quem bebe dos livros, quem se deleita neles e se perde, sem preocupações com o retorno. Enquanto isso, a luz brinca à apanhada com as paredes antigas, rasgando majestosamente as vidraças destas românticas janelas, deixando no corredor iluminado um cheiro a magia e a conhecimento que se empilha em estruturas neuronais.

“Em Roma, sê romano”, já dizia a popular sabedoria. Assim sendo, sento-me sem pudor na escadaria principal, redigindo estes dizeres e apaixono-me mais um bocadinho por isto aqui. Ninguém me estranha, como noutros lugares em que me aquieto para rabiscar grafismos meus; eu não sou desta casa, mas sinto-me (um bocadinho) como se fosse.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Extraviar

Perco-me nos interstícios das palavras, nos interstícios das pessoas, no aglomerado embrenhado que acontece quando se cruzam estas duas coisas, e se conversa.

Perco-me e refastelo-me no seu agradável sabor; crescer de mão dada é uma das melhores coisas que existe.

sábado, 13 de novembro de 2010

A dolorosa. (2)

No meio de tudo isto, o que me segura é o amor. O amor é mais poderoso que o desgastante e que o (percepcionado como) inútil constante investimento. Continuar firme transforma-se numa luta estrangulante; e o amor mantém-se a rocha onde repouso e recupero.

É a razão pela qual não fujo; fico e perdoo sem o input do arrependimento.

Suponho que amanhã seja mais fácil ver do que agora o é escrever.

A dolorosa.

Rasgou o ar com energia, o possante grito. Outros tantos rasgões se lhe seguiram, mais por dentro que por fora. Continuam a romper-se, uma por uma, as forças que nos sustentam. Até ao derradeiro tempo em que nada mais há que se retalhe.

“Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.”

“Faz o que dizes, não digas o que fazes.”

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Trinta e dois.

Na quietude da casa o telefone soou alto. A chamada vinha de terras da Rainha, e nem era para mim. Sem saber, falou o que era certo, e sem notar fez-se mais fulcral em mim. Esta mulher que telefona pela noite dentro é para mim um exemplo e, não sabendo, alentou-me o coração, exactamente nesta altura crítica que a casa onde o telefone toca atravessa (e eu também).

“Elevo os meus olhos para os montes; de onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não dormitará. Eis que não dormitará nem dormirá aquele que guarda a Israel. O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua mão direita. De dia o sol não te ferirá, nem a lua de noite. O Senhor te guardará de todo o mal; ele guardará a tua vida. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre.”

Deixou notícias. Que está bem; que “as famílias riem, choram, e riem outra vez”; porque ultrapassaram as circunstâncias trazedoras de lágrimas, e saíram delas mais fortalecidos. Disse também que hoje se festeja um marco na história desta família. Foi há trinta e dois anos que dois adolescentes e uma criança, saídos da sua terra natal, do seu lar, da sua realidade inteira, chegaram a esta pátria lusitana, para construir uma vida a partir da ausência de tudo.

Estou aqui, rodeada de todas as regalias e confortos, como prova viva de que conseguiram. Porque assim como Ele prometeu, Ele cumpriu.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Velhos hábitos.

Tenho o hábito de guardar e de datar. Uma folha de uma árvore, um rabisco intencional, um recado trocado numa aula, um talão de um jantar bonito, um bilhete de cinema, um laço de uma prenda, o próprio papel de embrulho, uma carta, um lembrete rabiscado ao sair de casa, tudo o que seja passível de reter, eu guardo e dato. Nas caixas e caixinhas que utilizo para o efeito, as memórias acumulam-se sem pressa, nem dó, nem piedade; aguardam, silenciosas, o dia em que me lembrarei de as ir espreitar.

Antes de enfrentar a barafunda que engoliu o meu quarto pela calada da noite, e motivada pelo piano que sussurrava o seu embalo no velho rádio, peguei na caixa da flor, a das memórias mais selectas. Estava embrulhada em pó, e não me preocupei em sacudi-lo; fiquei só a observar a sua beleza suja e rústica, e a gravar tudo como se de um filme se tratasse. O fecho, outrora fácil, fez-se difícil com a ajuda de alguma ferrugem, e precisou de um jeito extra para ser aberto. O conteúdo trouxe uma nostalgia atroz: entre embrulhos, bilhetes de Natal e de aniversário, flores secas e lacinhos da parfois, estava uma declaração de amor das mais bonitas que algum dia recebi. Foi escrita por uma amiga, numa altura de reconciliação. As feridas estavam saradas e as lágrimas secas; aquela carta foi o beijinho por cima do dói-dói que já havia passado; lembro-me de ter contido a alegria que se queria jorrar pelos olhos, de disfarçar com muitos gestos e risos à entrada do autocarro da visita de estudo, e de tagarelar todo o caminho com aquela com quem me reconciliara, que era a melhor amiga do meu coração.

Hoje não nos falamos. Apartou-se tudo: a cumplicidade, que foi morrendo, a confiança, que se foi desfazendo; tudo cozinhado com dureza de palavras e encruzilhadas de circunstâncias. Uma boa parte do que naquela carta está escrito será sempre verdade, e o resto voou.

O tempo, entretanto, vai roendo também as memórias físicas. Os talões e bilhetes vão ficando cada vez mais brancos, há embrulhos que já não me fazem recordar nada; todas essas coisas terão de ser lançadas fora, para dar espaço às memórias novas. Daquela que outrora foi minha cúmplice compincha, não eliminarei nada. Já que não pude guardar a sua amizade, não guardarei o rancor pelo seu término agreste. Guardarei apenas a memória dos dias em que ela existiu.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Natal

Aproxima-se a passos largos a celebração do nascimento de Jesus, e esta é uma festa que me arrepia. Podia celebrar este aniversário o ano inteiro sem me importar, com ou sem frio, com ou sem neve. Agora que atento na frase anterior compreendo que é mesmo isso que faço, cantando as suas características canções constantemente, agradecendo-Lhe em oração a Sua existência e a maneira brilhante como escolheu conversar directamente com a Humanidade.

Este é, portanto, o momento em que os arrepios atingem o seu auge. Cristo, o Salvador, nasceu. As estrelas não se cansam de o anunciar, os anjos são responsáveis por entregar a Boa-Nova e o curso da História do Homem muda para eternamente. O próprio Deus fez-se bebé e ei-Lo, tão perfeito e próximo que qualquer um se Lhe pode dirigir, pois Ele veio para abraçar a totalidade do Mundo.

E essa noite santa, silenciosa, plácida, terna e avassaladora, invade-me e amaina-me. Cessam as inquietações, as fúrias, as trivialidades que arreliam, “as coisas de baixo”; é tempo de contemplar o que do Alto veio, e ficou.

Obrigada.

Obrigada.

Obrigada.

Ao som de (clicar aqui)

domingo, 17 de outubro de 2010

Do viver numa bola de sabão

Um dia poderei viajar como me aprouver, de comboio, de auto-caravana, de avião, de autocarro, de jacto privado, de carro ou de bicicleta, e ir sempre ter ao lugar onde quero realmente estar. Um dia poderei dar-me ao luxo de não sentir saudades das paisagens, dos amores, dos ventos, dos cheiros e das poeiras, simplesmente porque assim que o coração começar a contorcer-se de incómodo eu poderei, num piscar de olhos, acabar com tais apertos. Um dia serei capaz de aparecer de surpresa perto de quem quero, esteja onde estiver, e abraçar longamente, sem vontade de largar. Um dia vou voar como o coração ordena, e viver nómada, e sorrir ao sentir-me a chegar muitas vezes. Para não dar conta que os meus amores vivem todos dispersos por esta bendita Terra, e para chegar é necessário, primeiramente, partir.



Knock, knock!

Who’s there?

Reality, just cheking in!

sábado, 16 de outubro de 2010

Apontamento (4)

Entro no embalo da canção que fez alguém pensar em mim, e sorrio “até com o fígado”. Estou constantemente tão rodeada de amor, de mimos espalhados em redor da minha alma, de afectuosos pedidos de quem me quer por perto e de quem nunca me deixa cair no esquecimento. Já antes havia ouvido: quem semeia colhe. Falando honestamente, eu nunca semeei para colher; é um acto quase automático, “só sai”. E mais: eu nunca esperei que a colheita fosse tão farta e vasta e bela.

Esta minha existência é muito abençoada.


Ao som de (clicar aqui)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Trabalho de Sísifo (ou, Esta madrugada escrevi assim (9))

Voltei às madrugadas. Voltei aos velhos hábitos, aos cansaços, às memórias. Voltei às melancolias dos teus interstícios, às recordações exaustas, às canções de embalar os sentires até portos proibidos. Voltei às madrugadas como prometi que não mais faria, volto a cair nas rotinas erradas e nos processos do insucesso.

E,

(a contrição que aqui vai dentro!)

juntamente com tudo isto, voltei a escrever-te.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Os meus ateus

E, de repente, os meus ateus apelidam a minha postura de “a revolta mais linda”, e pedem-me que ore por eles.

Os meus ateus que descrêem o amor e se engalfinham numa luta árdua contra o quotidiano emburrecedor, os meus ateus, que são bem meus, tão díspares de mim, tão longínquos das minhas crenças, mas tão entranhados no meu peito.

Os meus ateus são os que me trazem as palavras mais cruas e belas. E exactamente quando penso que não estou a salgar o suficiente, eis que os seus dizeres se apresentam perfeitamente temperados.

Vou amar os meus ateus para sempre, como Ele me ensinou.

A Branca de Neve escreveu:

"(...) A hora do almoço ainda foi melhor e é bom saber que todas as semanas, em todas as circunstâncias, vai haver uma hora assim, de apoio a todos os nivéis, de amizade, de amor e de irmandade. É bom saber que aconteça o que acontecer na nossa vida, temos sempre alguém com quem contar, com quem rir e com quem chorar. A presença física é todas as semanas, mas a amizade é todos os dias."

E ao ler: sorri, o coração aqueceu-se todo, quase deixei fugir aquilo que dos olhos queria sair, e percebi que era isto que eu queria escrever há muitos dias e não conseguia.

Por isso, Branca de Neve, muito muito obrigada pela tradução do que vai aqui dentro.

(como diriam, originalmente, as minhas primas) Corações, beijinhos e flores.

sábado, 2 de outubro de 2010

Um dia saberei falar bem.

Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Estou bem cansada dos lugares comuns, de dizer palavras que ficam bem, porque de algum modo aliviarão o coração de quem as ouve, ou por simplesmente serem adequadas ao momento.


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Há alturas em que me esqueço disto e não falo, disparato. Acumulo muitas palavras desnecessárias, esbanjo o tempo precioso de quem me ouve e chego ao fim com o cérebro embrulhado numa questão singular: “porque é que não ficaste de boca fechada?”


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Então olho nos olhos, afago as mãos, oro, abraço com força, procuro estar por perto (ainda que em silêncio), leio/cito O Livro, uso de experiências mais valiosas que a minha, de metáforas preciosas que aprendi pelo caminho. E esforço-me esperançosamente por fazer a minha parte.


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

E ainda bem. “A sabedoria humana aprende muito se aprender a calar-se” (Jacques Bénigne Bossuet) e “o silêncio é um amigo que nunca trai(Confúcio).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Observação (2)

(Rua da Guiné, 29 de Janeiro de 2010)


Não sei se é o cheiro doce que se aninha às horas de um dia quase findo, ou o simples murmúrio de um vento que se enregela, descomprometido. Não sei se é a satisfação breve que se passeia pelos olhos dos que, cansados, regressam aos seus lares, ou se é simplesmente a luz cujo equilíbrio toca a perfeição. Não sei se são os laranjas e os rosas que correm juntos por entre as nuvens, ou se são as flores que se debruçam (lindas, lindas, lindas) nas varandas das sujas ruas da capital. Não sei se são, sequer, os idosos amigos que se aglomeram às portas dos cafés, ou as paredes que, sendo velhas, ficam belas no esplendor da sua tinta descascada. Só sei que, por algum motivo ou nenhum em particular, eu amo os finais de tarde dos dias de Inverno.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Balanço (2)

Nesta altura do campeonato, dos reencontros e abraços e retornos, é muito comum perguntar: então, como foram as férias?

Durante as minhas férias chorei mesmo muito, fui deveras confrontada com a minha pequenez. Foi também durante as minhas férias que ocorreram grandes conflitos no seio de projectos dos quais faço parte, que dei de caras com facetas menos bonitas de pessoas que amo profundamente, que gente querida morreu, que vivi de perto o ateísmo de alguns da minha própria casa. Durante as minhas férias ouvi histórias de crianças de lares destroçados, que passam necessidades profundas, que já viveram horrores a mais para a sua pouca idade. Este tempo foi tremendamente exaustivo: habituei-me a dormir pouco, às minhas olheiras fundas, a conversas que se prolongam durante a noite, a personalidades difíceis de domar… Nestas férias vi dureza de corações, vi crença na ausência de sentido, cantei-Lhe louvores em frente a pessoas com corações empedernidos.

E depois… o paradoxo abismal, a alegria e a felicidade plenas que vivi com todos os meus queridos, a certeza de ter sido sempre levada ao colo, acarinhada, abraçada e beijada, mimada, silenciada, acalmada pelo meu Pai. Em todo o tempo vi-O em acção, no limpar das lágrimas, na remodelação dos propósitos, dando-me a conhecer gente maravilhosa e comprometida. Em todo o tempo contemplei o modo como tudo acontece como deve e quando deve, e em todo o tempo fiquei abismada.

Como foram as minhas férias? Óptimas e perfeitas (com tudo o que isso implica).

E eu acredito mesmo no que digo e escrevo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Balanço

As férias foram assim:

Intercâmbio com os jovens da SIBVC
Acampamento Musical Adonia
Acampamento de Crianças no AB
Acampamento de Juniores no AB
Duas semanas de descanso e relaxe e mimos com a família
Acampamento de Jovens no AB
Fim-de-semana mágico na Marinha Grande
Conferência Bíblica no AB
Duas semanas no meu Porto, com a família e com os amigos, e o culminar num fim-de-semana perfeito.


Pelo meio: as viagens, as canções (tantas, tantas, tantas!), as partilhas, as cumplicidades, os telefones, os laços novos, os amigos antigos, o serviço, o sustento constante e infalível, os campistas (crianças, juniores e jovens), as saídas, os concertos, os jantares, os irmãos, os pais, os avós, os tios, as primas, os primos, as risadas, as noites mal dormidas, os conflitos, as resoluções, as bênçãos, a morte.


Em tudo: Deus.


Este Verão de dois mil e dez vai ficar para sempre comigo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Quando for velhinha direi: (2)

Tudo aconteceu num belo dia em que tinha vinte anos. Olhei e, como diria a M., vi uma luz. (pausa para rir e suspirar) Era uma luz radiante e não antes vista por aqueles lados; uma luz que, não sendo inusitada, resplandecia novidade.

Não me arrisco, de todo, a descrever os seus detalhes físicos; ainda tropeço na ausência de imagens felizes e sou descoberta, coisa que não quero. Mas ele é assim como uma torre, assim como uma nuvem, assim da cor do céu, assim como um forte, assim como um sábio, assim como uma criança, assim como um algodão, assim como… como se uma febre primaveril me assolasse e me toldasse o entendimento.

Num belo dia, em que eu tinha vinte anos, encontrámo-nos, conversámos, descobrimo-nos. As palavras eram parcas, o rubor das faces era excessivo. E, de repente, passou por nós uma (vvvvvvvvvv) rajada de vento que fez voar os dias e as partilhas e só cessou na hora da despedida. Ficaram as letras escritas num papel rasgado, os abraços tímidos e os sorrisos fugazes.

Na minha cabeça, um romance qual filme dos anos cinquenta. No mundo real, um amigo que precisa de apanhar um avião para ir para casa. São assim os amores assolapados sem razões aparentes, só porque a empatia é grande. São assim as paixonetas. Por isso é que afirmo que a minha primeira foi aos vinte anos.


(pausa para rir e suspirar)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

I Tessalonicenses 5:18

Quando algo bom acontece, inusitado ou esperado, pequeno ou grande, a minha mãe levanta os olhos e as mãos para o céu e, sorrindo, diz: “graças!”. Apercebo-me agora que é uma expressão pela qual estou apaixonada e da qual me aproprio sem notar, pois sempre que algo de agradável, bom, surpreendente acontece, na minha mente eu vejo-a, dando “graças!”. Ainda não consigo, porém, lembrar-me deste suspiro de gratidão nos momentos que me não são favoráveis. Durante as frustrações, as derrotas, o cansaço, a preguiça, só esbracejo, só resmungo. Mas não me foi dito: “em tudo dai graças”?…

Que seja assim mesmo:

Pelas coisas ruins que eu não gosto nada, “graças!”, de sorriso nos lábios, e olhos para o alto. “Graças!” pelo crescimento exponencial que elas trazem. Pelas surpresas que se encontram nesses vales sombrios e pelo raio de luz que nunca se apaga, “graças!”.

Ora, se é em tudo, é em tudo. (bela conclusão).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(sem título) (6)

Eis que a calmaria se instala em mim. Cessam as solicitações, os pensamentos, as conversas árduas e as músicas altissonantes. O senhor Buckley e sua guitarra sussurram-me ao ouvido. Sinto-me cheia de tantas coisas, e ainda há tanta vida para viver; há, ainda, a promessa guardada do dia de amanhã.

Reclino-me na poltrona, saboreio o hoje. Agradeço. Muito, muito, muito.

“Aleluia, aleluia. Aleluia, alelu-u-u-u-ia.” (cantamos juntos, o Jeff e eu.)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Maus costumes (?)

Deitar-me tarde por me perder em músicas bonitas tornou-se um vício.
Associar músicas bonitas a pessoas queridas tornou-se um vício.
Tomar as pessoas por queridas ao conhecê-las pouco e quere-las bem, tem sido um vício.
Conhecer pouco as pessoas, quere-las bem e apaixonar-me perdidamente pela sua personalidade simples sempre foi um vício.

Vivo num ciclo viciado, de enamoramento infantil, tão incontestável que rebenta o peito de existir em tantas quantidades.

E viver assim resulta em: uma mente cheia de sonhos, uma alma recheada de bem, e olheiras.

sábado, 31 de julho de 2010

(coração)

O amor. O amor. O amor.

Gosto tanto de o ouvir, sentir, entender, testemunhar, antever.

Como eu gosto do amor.

(a propósito da celebração do 50º aniversário do matrimónio dos meus avós, e outras coisas que tais.)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Som

Os batuques ritmados chamam as palmas, e estas chamam os corpos.
Nunca nos vimos e, estando lado a lado escutando a mesma canção, dançamos e sorrimos e saboreamos de um modo muito semelhante tudo o que estas sonoridades nos trazem.

São cores de uma terra quente, das memórias que alguém pintou numa pauta musical, e são paladares tão únicos para aqueles que se agitam e movem graciosamente ao som delas.

Nunca nos vimos e, estando lado a lado escutando a mesma canção, bate as palmas; eu danço batendo as palmas; tu danças.

E até parece que partilhamos um momento de cumplicidade, apesar de nunca nos termos visto, escutando a mesma canção.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As coisas

As coisas de baixo só trazem mesquinhice ao coração. Fazem-me despender energia, tempo e esforço, na maneira como lido com elas, como as adquiro ou como as faço dissolver em nada.

É triste aperceber-me de que a minha pobreza não cessa no meu bolso, prolonga-se até ao meu espírito. E isto por uma simples razão, apenas e só:

(ainda desobedeço e) Penso em demasia nas coisas cá de baixo.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Selah

Estar perto de Ti dissipa tudo o resto. A angústia da sede, a ansiedade da fome, a tormenta da dúvida. Estar próxima do Teu coração, saber-Te apenas, e nada mais, faz correr as lágrimas. Incessantes, de contentamento tal que não há imagem que se lhes iguale. Quero esvaziar-me cada vez mais, de mim e das minhas esquisitices; quero encher-me do que a Tua fonte jorra até à eternidade.

Estar perto de Ti dissipa tudo. Tudo.

E a cada dia que cresço nesta intimidade, só me ocorre perguntar:

Quão grande é o Teu amor, que me alcança? É ilógico, irreal, e verdadeiramente transcendente. Quão grande é o Teu amor, que Se deu pelo meu mal? Como pode ser, que me tenhas escolhido e guardado, de tão imerecida forma?

É de joelhos que me largo em prantos. De adoração e súplica. De humilhação e redenção. De gratidão infinita pelo Teu presente de salvação.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mostrar e contar com alegria

Estes têm sido dias de grande cansaço, e em cada um o Senhor me tem levantado para o Seu trabalho, para a Sua honra. Como O louva o meu coração, pela Sua constância e pelo Seu abraço!

Me alegro mais e mais a cada despontar do dia, energizada pela Sua forte mão, pelo Seu eterno amor. Quero contar e mostrar, sem medos nem hesitações o que o meu Papá tem feito a cada dia, sem nunca cessar.

Estes têm sido dias longos e de muitas olheiras. E a perfeição de Deus age sobre as minhas falhas constantes, moldando-me e usando o que também faço de mal para que se cumpra o Seu bem.

E por isso escrevo, sem subterfúgios e sem grandes recursos estilísticos: “meu Deus é tão grande, tão forte e potente, não há nada que não possa fazer!” Ama as crianças, ama o Seu povo, e de uma forma tremendamente inacreditável, ama-me (desmerecidamente!) a mim.

Eu pertenço-Lhe.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mezinha

Experimentar o próprio remédio pode ser catártico e assustador em simultâneo. Observar um pacote medicamentoso e rever-se nas prescrições, nas especificações, como se aquele mínimo pedaço de papel contasse a história de vida da maleita de que se padece.

Experimentar o próprio remédio pode, ocasionalmente, despertar uma negação exacerbada da necessidade de o tomar: “eu não preciso disto”, “eu não estou doente”, “isto é para os outros, esses tantos outros, não para mim”.

É quando a sensação de descontrolo se torna mais insuportável que o habitual, quando todo o conhecimento já demonstrou “por á mais bê” que é, deveras, crucial que se experimente do próprio remédio, que se prova o sabor agridoce de ser o sujeito de tratamento, de avaliação.

Experimentar o próprio remédio pode destapar factos ocultos. Como o facto de não se crer no remédio que se prescreve.

(que raio de médico és tu?)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Foi aqui que eu nasci.

A manhã quente, como a promessa de um abafado dia, ocasionalmente cortada pela breve brisa que ainda se sente (o fresco ar do norte). O sol imperioso, implacável, doce, colorindo-me a pele de melanina. Um senhor bem vestido e desconhecido, lançando no ar um cumprimento agradável e muitos sorrisos abertos, a voz cheia de um delicioso sotaque a ecoar pelas escadas do prédio.

E ela, tão linda!, fazendo adeus da varanda, de sorriso franco e amor nos olhos, tão mamã, tão anciã.

“Pensa bem! Pensa com a cabeça, não penses com os pés!” – como pode alguém que me vê tão pouco me saber tão bem?

Eu só quero este povo, esta terra, este amor, todos os dias.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

(sem título) (5)

Agora é que se verão bandeiras em todas as janelas, que se ouvirá “A Portuguesa” em todas as bocas, vuvuzelas ainda mais incessantes, t-shirts, tops, cachecóis, (tudo!) com as cores deste pedaço de terra “à beira mar plantado”. É agora, pois foi agora que marcámos e nos impusemos. É sempre depois da vitória que somos portugueses. Apenas e só, infelizmente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Notícias

"Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais."


In Levantado do Chão, Ed. Caminho, 14.ª ed., p. 59 (fonte)

A história do dia de hoje é que José Saramago morreu.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

(enfim)

Serafim era um menino bonito a quem tudo corria como devia correr.
Fazia as coisas de todos os dias.
As suas acções eram iguais às de toda a gente.
As suas rotinas não fugiam a qualquer regra.
Tinha uma vida normal.

Não há muito mais a dizer acerca do Serafim.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cinco vezes seis igual a trinta

Lembro-me de ser pequenina e chorar baba e ranho quando o meu pai me dizia: “nestes teus dias livres, escolhes uma hora para trabalhares nas tuas tabuadas”. Estas palavras eram, para mim, como chicotadas. Uma pessoa com sete anos de idade, com nenucos, primos, irmão, avós e tantas coisas para brincar (essas delícias que o Verão traz às crianças felizes), tinha de seleccionar uma hora do seu dia para se sentar e concentrar-se em dois vezes três e sete vezes cinco e nove vezes nove (essa era fácil, oitenta e um).

Eu não percebia nada do propósito daquilo! (sim, hoje já sei que o papá me estava a capacitar, a não deixar desvanecer o ritmo de trabalho ganho durante o ano escolar, a poupar-me tempo nos anos vindouros, quando a tabuada tão bem sabida me permitiria fazer qualquer cálculo super-depressa). Não percebia, e quando me entristecia profundamente, era no segredo dos meus cadernos. Eram aqueles quadradinhos azuis e brancos que me viam as lágrimas, o rosto desfigurado, o “pranto e o ranger de dentes”. Tinha o meu momento de revolta, seguido da fase de mentalização, que por sua vez precedia a embirração; só depois de tudo isto é que me decidia a fazer as ditas tabuadas.

O trabalho em si tomava uns vinte minutos do meu dia. O processo todo a que eu me sujeitava demorava (num dia bom) três horas. Foi o meu querido avô F., numas férias passadas em nossa casa, quem mo explicou pela primeira vez; foi o primeiro, para além dos cadernos aos quadradinhos, a conhecer-me a fúria contra “a hora das tabuadas”, e a revelar-me essa verdade universal: “quanto mais depressa cumprires as tuas tarefas, mais depressa vais brincar”. Mentiria se dissesse que, desde então, foi remédio santo. Mas até hoje, depois de muitas tabuadas e outras matérias que tais, durante a época de exames e na labuta para alcançar as metas a que me proponho, é este o pensamento que me empurra quando nada mais o faz.

“Quanto mais depressa cumprires as tuas tarefas mais depressa vais brincar.”

(“vais brincar”, “vais dormir”, “vais de férias”: são tudo sinónimos.)

Coração

Foi num dia de Sol (e dezassete anos depois) que encontrei a minha outra irmã. Nós reconhecemo-nos imediatamente, apesar de, primeiramente, termos trocado apenas um cordial aperto de mão. Esta irmã, que me sabe de cor por dentro e por fora, um dia resolveu contar-me. Contar a história do mundo em que eu vivo (só para clarificar).

Eu sei que se atreveu a passar muito pouco daquilo que cogita para as palavras escritas, mas não consigo evitar as lágrimas cada vez que leio esse poucochinho; é que ela conta-me tão bem!... Serei demasiado fácil, ou é a sua grande mestria que não coloca outra hipótese? Eis um breve (muito breve) excerto.

“Embora perfeito,
Foi pintado com uma árvore majestosa, à beira de um rio de águas translúcidas
de onde se conseguiam ver os peixes multicolores e as pedras de vários tamanhos
para lá serem deixadas tristezas.
Pollyanna sentava-se ali, lia o livro
escrevia-se num pergaminho, palavras de oração e
abria um pequeno espaço na terra para ali deixar as lágrimas.
Depois daquilo passeava-se e deixava o seu sorriso
e a sua melodia em cada canto.
As flores nunca a viram triste,
nem as árvores mais pequenas, cujas folhas eram notas
de muitas músicas
nem as borboletas que por ali pairavam
nem os ponteiros do relógio que insistiam que ela se apressasse nas suas
paragens.
Pollyanna era feliz,
mesmo quando estava triste.”


Espero que a minha irmã leia estas palavras e não se zangue (é que não lhe pedi a devida autorização…). Também espero que ela me visite, aqui no meu mundo, junto à árvore majestosa. Para desobedecermos aos ponteiros e partilharmos momentos em que, estando tristes, somos felizes.

terça-feira, 15 de junho de 2010

After hours

Depois de ter explorado T-O-D-A-S as capacidades da nova aplicação "design" do blogger, depois de ter rido, depois de ter reflectido, depois de ter feito nenhum, depois de me olhar ao espelho e ver as olheiras trinta vezes maiores que ontem (e pensar que há algo que necessita de ser feito quanto a esta carapaça-corpo-embrulho-exterior), depois de ter escrito, depois de ter apagado os escritos;
ainda não fui descansar.
que era o que devia ter feito assim que voltei de mais um dia de árduo trabalho.
Assusta-me antever o final deste penhasco de onde me lanço, sem explicações coerentes.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Se uma espera incomoda muita gente, duas esperas incomodam muito mais...

Já é sabido que a menor ambição que tenho nesta existência é crescer. Porém, os anos e as experiências vão passando por mim, sem que possa evitá-los; cresço, e pelo caminho aproveito para aprender e apreender o que puder. E se há coisa que tenho constatado (com atroz regularidade, note-se) é que existem muitas pessoas com fobia à espera. Não só à designação mais corriqueira do termo (esperar pela sua vez, esperar que o semáforo mude de cor, esperar para pensar, esperar para falar), como também às várias esperas da sua própria vida e ainda, por incrível que pareça, fobia às esperas das vidas dos outros.

Que alguém se impaciente com a sua condição, com alguma situação que não apresenta resultados, com algum estado que não muda (apesar dos muitos esforços para que a alteração se dê), ainda compreendo; mesmo sabendo que o exercício da paciência é esse mesmo, confiar que o tempo de espera é só o necessário para que tudo ocorra no momento perfeito. Porém, verificar que essa mesma impaciência se espraia para os assuntos dos outros, para os resultados que não existem nas vidas dos outros, para as condições inalteradas há muitos anos numa vida que não é a sua… isso ainda me deixa estupefacta.

Queria apenas registar, não há espera que dure uma vida inteira, seja em nós, seja naqueles que nos rodeiam. A mudança só é tão mágica e impactante por ser inesperada e inequívoca. Assim, não há situações que precisem de ser forçadas, não há impaciência que resolva coisa nenhuma; nem há, sequer, controlo sobre a maioria das coisas sobre as quais cremos (e queremos) ter controlo.

Há sim, momentos pensados cuidadosamente, amorosamente, para tudo correr da maneira mais perfeita (é Ele que assim opera). E aos impacientes, com comichões e ganas vorazes de que tudo se precipite para ontem (que o tempo urge!), resta-lhes aprender a esperar. Resta-lhes aprender a saborear o tempo que vem antes de tudo mudar.

Porque é quando se confia que a vida se vira do avesso.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

dois zero zero sete / dois zero zero oito

De repente, uma saudade funda, uma falta do que outrora fomos. São estados de espírito que as canções antigas despertam sem cessar. As feridas abertas quase impediam de lembrar tantas e tantas coisas deliciosas que já passaram por nós.

Mas agora ouvem-se as letras que traduzem a alma e lembro-me, subitamente, que perdermo-nos assim foi tremendo, turbulento e terrível.

Três drásticos tês, que soam a irreversível.

(pode ser que seja só por agora)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Habilidade literária: procura-se

Hoje gostava de conseguir escrever por parábolas. Nunca fui muito boa com parábolas, mas hoje precisava mesmo de me transformar e sê-lo, só por instantes.

É que há coisas que não podem ser ditas a nu.

É isto, portanto. Hoje gostava de conseguir escrever por parábolas.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Esta madrugada escrevi assim (8)

Vou intrometendo o meu corpo numa terra que, outrora sendo nossa, quero fazer minha, e minha só. Faço-me acompanhar por um temor inicial, de me cruzar com o teu rosto e assim ver desmantelado todo o meu plano. Mas Deus é por mim, sempre foi, sempre será. E por isso calcorreio livremente todos "os espaços vazios que se me apresentam", deixando que temores dúbios se dissipem com o ar frio que nessa terra impera.

Não nos acercamos, não temos as respectivas coordenadas geográficas.
O que os olhos não vêem, o coração não sente.

(?)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

...

Foi um fio de bruma que aqui se depositou, após outro, que se seguiu ao que primeiro veio. Foi uma poeira leve que se tornou camada de grosseiro pó. A janela sujou-se do pouco uso que tinha, por já não se escancararem as portadas, de se aquietar com o tempo que esvoaçava para lá dos vidros.

Agora desmonta-se a sanefa e lavam-se as cortinas. Limpam-se as vidraças, abrem-se as portadas. O sol alumia a madeira húmida e sua parca cor. O pó que o pano não agarrou fugiu pelas frestas largas.

E a janela, devido ao fundo limpo, tornou a ser azul.

segunda-feira, 8 de março de 2010

É assim que se faz. (2)

Em Marrocos o trabalho ia de vento em popa: os missionários que eram enviados criavam igrejas clandestinas, fixavam-se no país, prosperavam; aproximavam-se genuinamente das gentes daquela terra, falavam da sua fé e os marroquinos, um a um, criam. Apesar de a Polícia nunca descansar no seu dever de fazer cumprir a lei, havia mais e mais comunidades cristãs mesmo debaixo das suas barbas. Entre ontem e hoje vim a saber que prenderam, interrogaram e deportaram líderes que impulsionaram este movimento naquele país. Perante tais notícias procurei saber como estavam aqueles que conheci no Verão, que tão grande bênção foram na minha existência. Esperava encontrar algum desalento, alguma tristeza nas palavras… (sou tão mas tão pobre de espírito…)

O H. disse que havia alguns problemas, que o governo queria fazer “uma limpeza”, mas que não me perturbasse, que “o Deus já estava no Marrocos”. O H. disse que agora nada havia a fazer; por muito que os poderosos quisessem, “o Deus vai mandar mais!!!”

É assim que eu aprendo. Eu, julgando que ando a lidar com a tribulação, choro lágrimas infinitas. Eles, a serem perseguidos e expulsos do seu país, afirmam em plenos pulmões quem é Aquele que manda mais.

É exactamente assim que eu aprendo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

(sem título) (4)

tenho

sonolências, olhos que tremem, lágrimas que escoam, coração que se descompassa.

Só tenho cansaços (dormentes), e gratidões (imensas), e preces (prementes), e exaltações (pungentes).





Tanta coisa numa vida só.

terça-feira, 2 de março de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Subitamente

Eis que aquela terra volta a chamar por mim.
Como um sopro subtil, um sussurro ao coração: volta.

Quero tanto voltar, há tantas saudades para aniquilar!...





Será que posso?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Observação

(Biblioteca, 21 de Janeiro de 2010)

Era uma rapariga tão comprida, tão comprida, que tudo nela era longo. Uma cara que não terminava num queixo redondo, uns cabelos cujas pontas não terminavam nos ombros, uns braços cujas extremidades não tocavam nas ancas, e umas pernas cuja altura não se conhecia; pois a par de tudo isto, usava um comprido vestido cinza, que não permitia ver o que já se afigurava serem uns amplos tornozelos.
Comprida em todo o seu esplendor, caminhava lânguida, ou não fosse essa a básica medida do comprimento. E, como não podia deixar de ser, a comprida tristeza que carregava nos olhos cansados inundou as escadas que desceu, que nem conseguiam ser mais compridas do que ela.
Passou por aqui agora mesmo, num passinho curto.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Crónica de encantar

Aos seus olhos ele era um príncipe. Não desses encantados, que cavalgam por verdes campos em esbranquiçados cavalos, envoltos em clichés constantes. Não; para ela, ele era um homem cheio de realeza, nas feições belas, nos modos discretos, nas vestes agradáveis, nas aprazíveis formas do seu corpo inteiro. Emanava ares de príncipe, no sorriso, na voz grave, mas principalmente no trato com os demais, e na humildade com que perfumava o ar que atravessava. Ela deleitava-se com as pequeninas coisas que os enamoramentos recentes costumam agigantar, com o simples facto de se cruzarem num caminho comum, com um sorriso cúmplice trocado no meio da multidão, com palavras ditas num cordial tom… para ela, tudo eram palpitantes pinceladas num quadro cada vez mais interessante de pintar.

Aos seus olhos ela era uma princesa. Saída de um conto de fadas, em total consonância com a idealista perfeição. Tinha o rosto emoldurado por longos cachos louros, um porte bonito, vestidos rodados, sapatos de cristal, prontos a serem deixados numa escarlate escadaria. Gostava de a ver atravessar o seu caminho, graciosa. Por ser um senhor, procurava a maior descrição no modo como se perdia em observá-la. Ele deleitava-se com as típicas coisas que os enamoramentos recentes costumam agigantar, com o seu sorriso doce, e a sua larga gargalhada, com o toque delicado que conseguia deixar em tudo, mas sobretudo, com as certeiras palavras que distribuía cautelosamente, nem demais nem de menos.

Assim se viam, mutuamente, abstendo-se de confissões. Ela por receios femininos, ele por másculos cuidados, ambos pelo adoçante sabor que o platónico sentimento conferia aos seus dias.

Assim se vêem; assim ainda se vão vendo. Até quando aguentarão calando o que os olhos não cessam de gritar?


(É que já todos sabemos como isto vai terminar…)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

HAITI - Concerto


Vai ser às 20h30 do dia 14 deste mês (domingo);
Vai ser de louvor;
Vai custar 5 euros que vão ser para ajudar a atenuar o desespero de quem perdeu tudo.
Vai servir para levar esperança onde ela se extinguiu.

Vai ser em Lisboa, no CCVA de Alvalade;
Vai ser muito bom.


Vais lá estar?




As reservas são feitas aqui

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A segunda coisa mais honesta que escrevi em muitos dias:

Oh L., não sei o que fazer.

Com o tempo.
Com o medo.
Com as decisões.



(sempre a L.; até de longe, sempre a L.)

sábado, 23 de janeiro de 2010

(exposição)

Escrevo-Te porque falar não posso, pois a noite se abateu sobre a Terra e é tempo de descansar. Escrevo-Te porque pernoitar me é ilícito, a dor assola o meu âmago inteiro. Eu vejo-Te, e ouço-Te, e a vergonha se abate sobre mim. Quem és Tu, que de mim Te compadeces, que entendes as minhas fugas e aceitas que para Ti corra por não encontrar fôlego em mais lado algum?

Quem és Tu que não Te insurges com as minhas faltas, com o meu embaraço em declarar-Te, com as lágrimas que correm pelos mesmos constantes motivos? Quem és Tu que tens tanto amor tão impossível, tanto abraço reconfortante, tanta força inesgotável, tanto mistério milagrosamente escondido, tanta verdade e sapiência, tão infinita perfeição? Quem és Tu que me impeles a ser melhor; e que me perdoas por falhar em cumpri-lo, sempre? Quem és Tu, minha necessidade básica, minha razão mais premente, minha fonte de existência?

Sim, a vergonha se abate sobre mim. Quem sou eu para ter a permissão de rastejar, esbaforida, a Teus pés? Pois o imaculado chão que Tu pisas se escurece com as minhas errâncias e soluçantes prantos; pois as repetições dos delitos crassos mancham até a fragrância que Tu exalas. A fuga desmedida nada resolve, esconder-me de Ti é não possível; tentar calar-Te em mim é insânia, as Tuas palavras ecoam fazendo ensurdecer qualquer outro pensamento.

Hosana, Hosana. Hosana nas alturas. Quem és Tu que esqueces todos os meus tropeços e me fazes nova criatura, limpa criatura, alva e pronta para recomeçar? E quem sou eu, que demoro tanto precioso tempo a reconhecer o Teu irrepreensível comando? Quem sou eu que Te não mereço, e quem és Tu que me anelas sempre mais? Que foste capaz de Te dar por mim? Que tipo de matéria sou eu, que me entorpeço, e que tipo de criador és Tu, que me aprimoras? As palavras, parcas, jamais traduzirão o rio de emoções que transborda o caudal de mim. As palavras serão sempre parcas, as respostas sempre ilógicas. Pois Tu és Aquele que conheces em secreto, entras, fazes-Te entender, tomas conta e transformas.

Hosana, Hosana. Hosana nas alturas.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Época de Avaliação

História da Psicologia é uma cadeira bonita, superou as minhas expectativas. Eu esperava uma enumeração de factos, cronologias e nomes em todo o seu esplendor. Ao invés disso, encontrei relações inteligentes entre o outrora e o agora, desde a Antiguidade Grega até ao melhor dos dias de hoje, explicando a origem de pensares que se partilham por homens tremendamente afastados no tempo, e fazendo menção às respostas brilhantes encontradas pelos mais afamados nomes.

A coisa mais bonita, porém, de todas as que aprendi, foi esta:

ARISTÓTELES

Potência e acto

Para Aristóteles, todas as coisas do universo tem simultaneamente potencialidade e actualização, com duas excepções – a matéria e Deus. Quanto mais próxima estiver de ter actualizado as suas potencialidades, mais qualquer coisa estará próxima de Deus. Assim, é possível pensar o mundo como uma hierarquia, tendo nos degraus superiores os seres que mais potencialidades actualizaram e nos inferiores a matéria neutra apenas em potência (esta ideia resulta na idade média na Grande Cadeia do Ser). Estas ideias procuram responder ao problema da mudança/permanência. Mudamos, permanecendo o que sempre fomos, pois a mudança é tão-somente uma actualização das potencialidades pré-existentes.

(fonte: Sebenta da cadeira, 2003)


Espero (mesmo) que o trabalho da frequência de hoje dê frutos; sumarentos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Maturescente

Conversávamos acerca do perdão, do exemplo do perdão perfeito que tínhamos, da centralidade deste, da sua incompatibilidade com as normas vigentes nos dias que passam, andando ou correndo. Durante a conversa pensava apenas na D., e como lhe tenho interdito o meu genuíno perdão, sem contestar a incoerência em que incorria; sem considerar o desapontamento do Exemplo.

É quando me apercebo das dores que a D. carrega, das aprendizagens que a vida lhe traz, que compreendo o óbvio, deliberadamente ocultado. Obedecer e ser amor, como me foi ensinado tantas e tão diferentes vezes.

Depois de tanto, é mesmo isto que faz sentido.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Apontamento (3)

Não é birra, não é filme, nem sequer síndrome.
Não é pancada, na verdade não é nada.
Não é de ontem nem de agora, é desde o início de sempre.
Não é passível de ser explicado satisfatoriamente.
É tido como desvario; realmente, nem se entende.
Não é argumento, nem máscara, nem lágrima.
Nem apenas uma chamada de atenção.

(é que…
Se tal desse, escolheria não agigantar-me.
Escolheria a candura, a dependência ininterrupta.)


É, sim, facto.
É ânsia, descontentamento teimosamente eterno.
É âmago.

Não quero crescer.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ora viva.

Não sabendo como inaugurar o ano dois mil e dez neste tímido recanto, fui procurar escritos passados que servissem para o fazer. Encontrei apenas um rabisco inadequado, escrito há dois anos, no dia doze do presente mês.

Redigi isto:
Está frio e não procuro agasalhar-me mais. Recordo-te como por vezes me acontece. Deve ser o efeito da guitarra dedilhada que toca suavemente e tu não tocas guitarra decentemente. Um acontecimento muito específico invade o meu pensamento, é tão típico dos meus pensamentos, sempre tão específicos, nunca vagos.

Assim me estreio no ano que já é novo há sete dias: com nada de novo para expressar, com falta de palavras para as descrições das vivências belas que me têm pertencido, e também com ausência de sentido.

Bem hajam (: