sábado, 16 de outubro de 2010

Apontamento (4)

Entro no embalo da canção que fez alguém pensar em mim, e sorrio “até com o fígado”. Estou constantemente tão rodeada de amor, de mimos espalhados em redor da minha alma, de afectuosos pedidos de quem me quer por perto e de quem nunca me deixa cair no esquecimento. Já antes havia ouvido: quem semeia colhe. Falando honestamente, eu nunca semeei para colher; é um acto quase automático, “só sai”. E mais: eu nunca esperei que a colheita fosse tão farta e vasta e bela.

Esta minha existência é muito abençoada.


Ao som de (clicar aqui)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Trabalho de Sísifo (ou, Esta madrugada escrevi assim (9))

Voltei às madrugadas. Voltei aos velhos hábitos, aos cansaços, às memórias. Voltei às melancolias dos teus interstícios, às recordações exaustas, às canções de embalar os sentires até portos proibidos. Voltei às madrugadas como prometi que não mais faria, volto a cair nas rotinas erradas e nos processos do insucesso.

E,

(a contrição que aqui vai dentro!)

juntamente com tudo isto, voltei a escrever-te.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Os meus ateus

E, de repente, os meus ateus apelidam a minha postura de “a revolta mais linda”, e pedem-me que ore por eles.

Os meus ateus que descrêem o amor e se engalfinham numa luta árdua contra o quotidiano emburrecedor, os meus ateus, que são bem meus, tão díspares de mim, tão longínquos das minhas crenças, mas tão entranhados no meu peito.

Os meus ateus são os que me trazem as palavras mais cruas e belas. E exactamente quando penso que não estou a salgar o suficiente, eis que os seus dizeres se apresentam perfeitamente temperados.

Vou amar os meus ateus para sempre, como Ele me ensinou.

A Branca de Neve escreveu:

"(...) A hora do almoço ainda foi melhor e é bom saber que todas as semanas, em todas as circunstâncias, vai haver uma hora assim, de apoio a todos os nivéis, de amizade, de amor e de irmandade. É bom saber que aconteça o que acontecer na nossa vida, temos sempre alguém com quem contar, com quem rir e com quem chorar. A presença física é todas as semanas, mas a amizade é todos os dias."

E ao ler: sorri, o coração aqueceu-se todo, quase deixei fugir aquilo que dos olhos queria sair, e percebi que era isto que eu queria escrever há muitos dias e não conseguia.

Por isso, Branca de Neve, muito muito obrigada pela tradução do que vai aqui dentro.

(como diriam, originalmente, as minhas primas) Corações, beijinhos e flores.

sábado, 2 de outubro de 2010

Um dia saberei falar bem.

Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Estou bem cansada dos lugares comuns, de dizer palavras que ficam bem, porque de algum modo aliviarão o coração de quem as ouve, ou por simplesmente serem adequadas ao momento.


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Há alturas em que me esqueço disto e não falo, disparato. Acumulo muitas palavras desnecessárias, esbanjo o tempo precioso de quem me ouve e chego ao fim com o cérebro embrulhado numa questão singular: “porque é que não ficaste de boca fechada?”


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

Então olho nos olhos, afago as mãos, oro, abraço com força, procuro estar por perto (ainda que em silêncio), leio/cito O Livro, uso de experiências mais valiosas que a minha, de metáforas preciosas que aprendi pelo caminho. E esforço-me esperançosamente por fazer a minha parte.


Quanto mais o tempo corre por mim menos sei o que dizer.

E ainda bem. “A sabedoria humana aprende muito se aprender a calar-se” (Jacques Bénigne Bossuet) e “o silêncio é um amigo que nunca trai(Confúcio).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Observação (2)

(Rua da Guiné, 29 de Janeiro de 2010)


Não sei se é o cheiro doce que se aninha às horas de um dia quase findo, ou o simples murmúrio de um vento que se enregela, descomprometido. Não sei se é a satisfação breve que se passeia pelos olhos dos que, cansados, regressam aos seus lares, ou se é simplesmente a luz cujo equilíbrio toca a perfeição. Não sei se são os laranjas e os rosas que correm juntos por entre as nuvens, ou se são as flores que se debruçam (lindas, lindas, lindas) nas varandas das sujas ruas da capital. Não sei se são, sequer, os idosos amigos que se aglomeram às portas dos cafés, ou as paredes que, sendo velhas, ficam belas no esplendor da sua tinta descascada. Só sei que, por algum motivo ou nenhum em particular, eu amo os finais de tarde dos dias de Inverno.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Balanço (2)

Nesta altura do campeonato, dos reencontros e abraços e retornos, é muito comum perguntar: então, como foram as férias?

Durante as minhas férias chorei mesmo muito, fui deveras confrontada com a minha pequenez. Foi também durante as minhas férias que ocorreram grandes conflitos no seio de projectos dos quais faço parte, que dei de caras com facetas menos bonitas de pessoas que amo profundamente, que gente querida morreu, que vivi de perto o ateísmo de alguns da minha própria casa. Durante as minhas férias ouvi histórias de crianças de lares destroçados, que passam necessidades profundas, que já viveram horrores a mais para a sua pouca idade. Este tempo foi tremendamente exaustivo: habituei-me a dormir pouco, às minhas olheiras fundas, a conversas que se prolongam durante a noite, a personalidades difíceis de domar… Nestas férias vi dureza de corações, vi crença na ausência de sentido, cantei-Lhe louvores em frente a pessoas com corações empedernidos.

E depois… o paradoxo abismal, a alegria e a felicidade plenas que vivi com todos os meus queridos, a certeza de ter sido sempre levada ao colo, acarinhada, abraçada e beijada, mimada, silenciada, acalmada pelo meu Pai. Em todo o tempo vi-O em acção, no limpar das lágrimas, na remodelação dos propósitos, dando-me a conhecer gente maravilhosa e comprometida. Em todo o tempo contemplei o modo como tudo acontece como deve e quando deve, e em todo o tempo fiquei abismada.

Como foram as minhas férias? Óptimas e perfeitas (com tudo o que isso implica).

E eu acredito mesmo no que digo e escrevo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Balanço

As férias foram assim:

Intercâmbio com os jovens da SIBVC
Acampamento Musical Adonia
Acampamento de Crianças no AB
Acampamento de Juniores no AB
Duas semanas de descanso e relaxe e mimos com a família
Acampamento de Jovens no AB
Fim-de-semana mágico na Marinha Grande
Conferência Bíblica no AB
Duas semanas no meu Porto, com a família e com os amigos, e o culminar num fim-de-semana perfeito.


Pelo meio: as viagens, as canções (tantas, tantas, tantas!), as partilhas, as cumplicidades, os telefones, os laços novos, os amigos antigos, o serviço, o sustento constante e infalível, os campistas (crianças, juniores e jovens), as saídas, os concertos, os jantares, os irmãos, os pais, os avós, os tios, as primas, os primos, as risadas, as noites mal dormidas, os conflitos, as resoluções, as bênçãos, a morte.


Em tudo: Deus.


Este Verão de dois mil e dez vai ficar para sempre comigo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Quando for velhinha direi: (2)

Tudo aconteceu num belo dia em que tinha vinte anos. Olhei e, como diria a M., vi uma luz. (pausa para rir e suspirar) Era uma luz radiante e não antes vista por aqueles lados; uma luz que, não sendo inusitada, resplandecia novidade.

Não me arrisco, de todo, a descrever os seus detalhes físicos; ainda tropeço na ausência de imagens felizes e sou descoberta, coisa que não quero. Mas ele é assim como uma torre, assim como uma nuvem, assim da cor do céu, assim como um forte, assim como um sábio, assim como uma criança, assim como um algodão, assim como… como se uma febre primaveril me assolasse e me toldasse o entendimento.

Num belo dia, em que eu tinha vinte anos, encontrámo-nos, conversámos, descobrimo-nos. As palavras eram parcas, o rubor das faces era excessivo. E, de repente, passou por nós uma (vvvvvvvvvv) rajada de vento que fez voar os dias e as partilhas e só cessou na hora da despedida. Ficaram as letras escritas num papel rasgado, os abraços tímidos e os sorrisos fugazes.

Na minha cabeça, um romance qual filme dos anos cinquenta. No mundo real, um amigo que precisa de apanhar um avião para ir para casa. São assim os amores assolapados sem razões aparentes, só porque a empatia é grande. São assim as paixonetas. Por isso é que afirmo que a minha primeira foi aos vinte anos.


(pausa para rir e suspirar)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

I Tessalonicenses 5:18

Quando algo bom acontece, inusitado ou esperado, pequeno ou grande, a minha mãe levanta os olhos e as mãos para o céu e, sorrindo, diz: “graças!”. Apercebo-me agora que é uma expressão pela qual estou apaixonada e da qual me aproprio sem notar, pois sempre que algo de agradável, bom, surpreendente acontece, na minha mente eu vejo-a, dando “graças!”. Ainda não consigo, porém, lembrar-me deste suspiro de gratidão nos momentos que me não são favoráveis. Durante as frustrações, as derrotas, o cansaço, a preguiça, só esbracejo, só resmungo. Mas não me foi dito: “em tudo dai graças”?…

Que seja assim mesmo:

Pelas coisas ruins que eu não gosto nada, “graças!”, de sorriso nos lábios, e olhos para o alto. “Graças!” pelo crescimento exponencial que elas trazem. Pelas surpresas que se encontram nesses vales sombrios e pelo raio de luz que nunca se apaga, “graças!”.

Ora, se é em tudo, é em tudo. (bela conclusão).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(sem título) (6)

Eis que a calmaria se instala em mim. Cessam as solicitações, os pensamentos, as conversas árduas e as músicas altissonantes. O senhor Buckley e sua guitarra sussurram-me ao ouvido. Sinto-me cheia de tantas coisas, e ainda há tanta vida para viver; há, ainda, a promessa guardada do dia de amanhã.

Reclino-me na poltrona, saboreio o hoje. Agradeço. Muito, muito, muito.

“Aleluia, aleluia. Aleluia, alelu-u-u-u-ia.” (cantamos juntos, o Jeff e eu.)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Maus costumes (?)

Deitar-me tarde por me perder em músicas bonitas tornou-se um vício.
Associar músicas bonitas a pessoas queridas tornou-se um vício.
Tomar as pessoas por queridas ao conhecê-las pouco e quere-las bem, tem sido um vício.
Conhecer pouco as pessoas, quere-las bem e apaixonar-me perdidamente pela sua personalidade simples sempre foi um vício.

Vivo num ciclo viciado, de enamoramento infantil, tão incontestável que rebenta o peito de existir em tantas quantidades.

E viver assim resulta em: uma mente cheia de sonhos, uma alma recheada de bem, e olheiras.